Roboão: O Rei que Dividiu Israel

Roboão recebeu um reino unido e terminou governando apenas uma parte dele. Filho do rei Salomão e neto de Davi, ele assumiu o trono em um dos momentos mais importantes da história de Israel. Mas uma decisão tomada logo no começo de seu governo mudou para sempre o destino do povo.

Quando Roboão se tornou rei, as tribos de Israel pediram que ele diminuísse os impostos e o trabalho pesado que haviam sido impostos durante o reinado de Salomão. O novo rei pediu três dias para pensar antes de dar uma resposta.

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Roboão então recebeu dois conselhos muito diferentes. Os homens mais velhos que haviam aconselhado seu pai recomendaram que ele tratasse o povo com bondade. Já os jovens que cresceram com ele disseram que deveria ser ainda mais duro.

Roboão escolheu seguir o segundo conselho.

Sua resposta provocou uma revolta. Dez tribos se separaram e seguiram Jeroboão, formando o Reino de Israel, ao norte. Roboão ficou governando o Reino de Judá, ao sul.

Mas a história de Roboão não termina na divisão do reino. Durante seus 17 anos de governo, ele também enfrentou conflitos, fortaleceu cidades, recebeu pessoas que deixaram o Reino de Israel e viu Jerusalém ser atacada pelo Egito.

Neste artigo, vamos conhecer a história de Roboão e entender como suas decisões contribuíram para uma das maiores mudanças da história bíblica.

Quem foi Roboão?

Roboão era filho do rei Salomão com Naamá, uma mulher amonita. Ele fazia parte da família real de Davi e recebeu de seu pai um reino que ainda era muito poderoso. (1 Reis 14:21; 2 Crônicas 12:13).

Roboão começou a reinar aos 41 anos de idade e governou por 17 anos, tendo Jerusalém como capital. Seu reinado aconteceu aproximadamente na mesma época em que Jeroboão governava o Reino de Israel, ao norte. (1 Reis 14:21; 2 Crônicas 12:13-16).

Seu nome em hebraico está relacionado à ideia de “o povo se multiplica” ou “o povo aumenta”. É interessante perceber que, apesar desse significado, seu governo ficou marcado justamente pela perda de grande parte do povo que estava sob o governo da família de Davi.

Roboão também tinha uma família muito grande. A Bíblia diz que ele teve 18 mulheres e 60 concubinas, que lhe deram 28 filhos e 60 filhas. Entre suas mulheres estava Maaca, filha de Absalão, por quem Roboão tinha maior afeição. Foi seu filho Abias, filho de Maaca, que se tornou seu sucessor. (2 Crônicas 11:21-22).

O problema começou antes de Roboão

Para entender por que o reino foi dividido, precisamos olhar para os últimos anos do governo de Salomão.

Salomão começou seu reinado com grande sabedoria. Ele construiu o templo de Jerusalém, fortaleceu o reino e acumulou muitas riquezas. Israel viveu um período de grande prosperidade durante parte de seu governo.

Mas os últimos anos de seu reinado foram diferentes. Salomão teve muitas mulheres estrangeiras e acabou permitindo que outros deuses fossem adorados em Israel. A Bíblia diz que seu coração não permaneceu totalmente fiel ao Senhor. (1 Reis 11:1-13).

Além disso, o povo havia enfrentado impostos pesados e trabalhos obrigatórios. Por isso, quando Roboão assumiu o trono, ele não encontrou um povo completamente satisfeito. Havia uma grande tensão entre o novo rei e as tribos de Israel.

Deus já havia anunciado que o reino seria dividido. Por meio do profeta Aías, o Senhor havia dito que grande parte do reino seria tirada da família de Salomão, mas isso não aconteceria durante a vida do rei, por causa da promessa feita a Davi. (1 Reis 11:11-13).

Isso mostra que a divisão do reino não aconteceu simplesmente por causa de uma única decisão de Roboão. Os problemas já vinham se acumulando durante o governo de Salomão.

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Mesmo assim, Roboão teria uma oportunidade de lidar com aquela situação de uma maneira diferente.

Roboão vai a Siquém

Depois da morte de Salomão, Roboão foi até Siquém, onde todo o povo de Israel havia se reunido para reconhecê-lo como rei. (1 Reis 12:1).

Foi nesse lugar que Jeroboão, filho de Nebate, apareceu novamente. Ele havia fugido para o Egito durante o governo de Salomão e agora tinha retornado.

Jeroboão e os representantes do povo fizeram um pedido a Roboão: queriam que ele diminuísse o peso que Salomão havia colocado sobre eles. Se o novo rei atendesse ao pedido, eles disseram que continuariam servindo a ele. (1 Reis 12:2-5).

Roboão pediu três dias para responder.

Foi durante esses três dias que ele recebeu dois conselhos completamente diferentes. E a escolha que faria entre eles teria consequências para toda a história de Israel.

Os dois conselhos que Roboão recebeu

Primeiro, Roboão consultou os homens mais velhos que haviam aconselhado seu pai.

Eles disseram que, se naquele momento Roboão tratasse o povo com bondade e estivesse disposto a servi-lo, o povo continuaria fiel ao rei. (1 Reis 12:6-7).

Era um conselho simples: trate bem o povo e ele ficará do seu lado.

Mas Roboão não gostou da resposta.

Então procurou os jovens que haviam crescido com ele e que agora faziam parte de seu grupo de conselheiros. Eles recomendaram que Roboão fosse ainda mais duro com o povo.

Quando Jeroboão e o povo voltaram depois de três dias, Roboão respondeu seguindo o conselho dos jovens. Ele disse que, se seu pai havia colocado um jugo pesado sobre eles, ele tornaria esse peso ainda maior. (1 Reis 12:8-14).

Em outras palavras, Roboão estava dizendo:

“Vocês acham que meu pai foi duro? Eu serei ainda mais duro.”

Foi uma resposta que mudaria a história de Israel.

As dez tribos se rebelam

Quando o povo ouviu a resposta de Roboão, a revolta começou.

As dez tribos do Norte rejeitaram o governo da família de Davi e escolheram Jeroboão como rei. Apenas Judá permaneceu ligada à casa de Davi, enquanto Benjamim também ficou junto de Judá. (1 Reis 12:16-20).

Assim, o antigo reino unido foi dividido em duas partes.

Reino de Israel: formado principalmente pelas tribos do Norte, com Jeroboão como rei.

Reino de Judá: formado principalmente por Judá e Benjamim, com Roboão como rei.

A partir daquele momento, Israel e Judá passaram a seguir caminhos diferentes durante muitos anos. A divisão política também teria consequências religiosas e militares para as duas partes.

A Bíblia mostra que a divisão fazia parte do que Deus havia anunciado anteriormente, mas isso não significa que a atitude de Roboão tenha sido correta. Ele teve uma oportunidade de agir com sabedoria, mas escolheu seguir um conselho que aumentou ainda mais o conflito.

Roboão tentou recuperar as tribos do Norte

Roboão não aceitou a divisão tranquilamente.

Ele reuniu 180 mil homens escolhidos de Judá e Benjamim para lutar contra Israel. Seu objetivo era recuperar o reino para a família de Davi. (1 Reis 12:21; 2 Crônicas 11:1).

Mas, antes que a guerra começasse, Deus enviou uma mensagem por meio do profeta Semaías.

A mensagem era clara: eles não deveriam lutar contra seus próprios irmãos. Cada um deveria voltar para sua casa, porque aquela situação havia acontecido dentro dos planos de Deus. (1 Reis 12:22-24).

Roboão e o povo obedeceram e desistiram da guerra.

Esse episódio mostra algo interessante. Mesmo depois de tomar uma decisão muito ruim, Roboão teve momentos em que ouviu a palavra de Deus e obedeceu.

Roboão fortaleceu as cidades de Judá

Depois da divisão, Roboão começou a preparar o território que ainda estava sob seu governo.

Segundo 2 Crônicas, ele fortaleceu várias cidades de Judá e Benjamim. Entre elas estavam Belém, Tecoa, Bete-Zur, Socó, Adulão, Gate, Maressa, Zife, Laquis, Azeca e Hebrom. (2 Crônicas 11:5-12).

Essas cidades receberam soldados, alimentos, armas e outros recursos. Roboão sabia que a situação havia mudado e que Judá precisava estar preparado para possíveis ataques.

Antes havia um grande reino unido. Agora, Roboão governava apenas uma parte dele e precisava proteger seu território.

Sacerdotes e levitas foram para Judá

Um detalhe interessante dessa época aparece em 2 Crônicas.

Quando Jeroboão começou a criar seu próprio sistema de adoração no Reino de Israel, muitos sacerdotes e levitas deixaram as regiões do Norte e foram para Judá e Jerusalém. Outros israelitas que desejavam continuar buscando o Senhor também fizeram o mesmo. (2 Crônicas 11:13-17).

Isso fortaleceu Judá durante os primeiros anos do governo de Roboão. O relato bíblico diz que, durante três anos, eles seguiram os caminhos de Davi e Salomão e se fortaleceram. (2 Crônicas 11:17).

Esse detalhe mostra que a divisão do reino não foi apenas política.

Ela também trouxe grandes mudanças na vida religiosa do povo.

Sisaque invade Jerusalém

Mas a situação de Judá não permaneceria tranquila.

No quinto ano do reinado de Roboão, o faraó Sisaque, rei do Egito, atacou Jerusalém. Antes disso, ele havia conquistado várias cidades fortificadas de Judá e então avançou até a capital. (2 Crônicas 12:2-4).

O ataque foi devastador.

Sisaque levou os tesouros do templo e do palácio real. Entre eles estavam os famosos escudos de ouro que Salomão havia feito.

Roboão então mandou fazer escudos de bronze para colocar no lugar dos escudos de ouro. (2 Crônicas 12:9-11).

O contraste era enorme.

Durante o governo de Salomão, o reino havia acumulado grande riqueza. Agora, poucos anos depois, seus tesouros haviam sido levados por um rei estrangeiro.

Quem era Sisaque?

Sisaque é geralmente identificado pelos historiadores com Shoshenq I, um faraó egípcio que governou no mesmo período de Roboão.

Essa identificação é importante porque existe um registro da campanha de Shoshenq I no templo de Karnak, no Egito. O chamado Portal de Bubastis apresenta uma lista com mais de 150 cidades e povos relacionados à campanha do faraó na região.

Mas existe uma diferença importante entre o registro egípcio e o relato bíblico: o registro de Karnak não menciona Jerusalém pelo nome. Por isso, é mais correto dizer que os estudiosos relacionam a campanha de Shoshenq I ao ataque de Sisaque descrito na Bíblia, em vez de afirmar que a inscrição egípcia comprova todos os detalhes do relato bíblico.

Ainda assim, essa ligação histórica é muito interessante. Ela coloca o episódio de Roboão dentro de um cenário histórico maior e mostra que a Bíblia fala de acontecimentos envolvendo povos e reis que também aparecem em registros antigos.

Roboão se humilhou diante de Deus

Existe outro detalhe importante nessa história.

Quando Sisaque chegou a Jerusalém, o profeta Semaías explicou ao rei e aos líderes de Judá por que aquela situação havia acontecido. Eles haviam abandonado o Senhor.

Quando ouviram essa mensagem, Roboão e os líderes de Judá se humilharam e reconheceram que o Senhor era justo. (2 Crônicas 12:5-6).

Então Deus anunciou que não destruiria completamente Jerusalém.

O povo ainda sofreria e ficaria debaixo do poder do Egito por algum tempo, mas a cidade não seria destruída. Deus permitiu aquilo para que eles percebessem a diferença entre servi-lo e ficar sujeitos aos reis de outras nações. (2 Crônicas 12:7-8).

Esse episódio é importante porque mostra que a história de Roboão não terminou simplesmente em fracasso.

Ele tomou decisões muito ruins, mas houve um momento em que reconheceu seu erro e se humilhou diante de Deus.

A Bíblia registra que, por causa dessa atitude, a ira do Senhor não trouxe destruição total sobre Judá. (2 Crônicas 12:12).

Como terminou o reinado de Roboão?

Roboão continuou governando Judá e permaneceu no trono por 17 anos.

A Bíblia diz que houve guerras entre Roboão e Jeroboão durante todo o período em que os dois reinaram. O reino que Roboão havia recebido de Salomão jamais voltou a ser unido durante sua vida. (1 Reis 14:30; 2 Crônicas 12:15).

Quando Roboão morreu, foi sepultado na Cidade de Davi, em Jerusalém.

Seu filho Abias tornou-se o novo rei de Judá. (1 Reis 14:31; 2 Crônicas 12:16).

Assim terminou o governo de um rei que recebeu um reino unido, mas viu grande parte dele se separar logo no início de seu reinado.

O que podemos aprender com Roboão?

A história de Roboão mostra como uma decisão pode trazer consequências que vão muito além de quem a tomou.

Ele recebeu um reino poderoso, mas também recebeu um povo cansado e insatisfeito. Os homens mais experientes lhe deram um conselho que poderia ter diminuído o problema: tratar o povo com bondade.

Roboão preferiu mostrar força.

Ele parece ter pensado que ser um rei forte significava ser um rei duro. Mas sua decisão produziu justamente o resultado contrário: em vez de aproximar o povo, ele ajudou a afastar dez tribos do governo da família de Davi.

Também precisamos lembrar que Roboão não recebeu uma situação perfeita. Salomão havia deixado problemas que já estavam causando insatisfação entre o povo. A divisão do reino também havia sido anunciada anteriormente por Deus.

Mesmo assim, Roboão teve uma escolha diante dele.

E sua escolha agravou a crise.

Ao mesmo tempo, sua história mostra que Deus ainda chama atenção de pessoas que erram. Quando Semaías falou com Roboão e os líderes de Judá, eles reconheceram que estavam errados e se humilharam.

Por isso, a história de Roboão não é apenas a história do rei que dividiu Israel.

É também uma história sobre conselhos, orgulho, responsabilidade e humildade.

Roboão nos lembra que nem todo conselho que parece forte é sábio. Às vezes, a verdadeira força está justamente em ouvir, reconhecer nossos erros e tratar as pessoas com bondade.

E existe uma última parte da história que não podemos esquecer: mesmo depois da divisão do reino, Deus continuou preservando a família de Davi em Judá.

A promessa feita a Davi não havia sido esquecida. Séculos depois, seria dessa mesma linhagem que viria Jesus, o Messias. (2 Samuel 7:12-16; Mateus 1:1-16).

Referências

  • Bíblia Sagrada — Nova Almeida Atualizada (NAA), Sociedade Bíblica do Brasil. Fonte principal para o relato de Roboão e para as referências bíblicas utilizadas neste artigo, especialmente 1 Reis 11–14 e 2 Crônicas 10–12.
  • Bíblia de Estudo NAA, Sociedade Bíblica do Brasil. Utilizada como apoio para o contexto histórico, cultural e bíblico relacionado ao período dos reis de Israel e Judá.
  • Bíblia de Estudo Arqueológica NVI. Utilizada como apoio para o contexto histórico e arqueológico relacionado ao Egito e ao período de Roboão.
  • Biblical Archaeology Society, artigos sobre a campanha de Shoshenq I. Utilizados para contextualizar os registros egípcios encontrados em Karnak e a relação histórica entre Shoshenq I e o Sisaque mencionado na Bíblia.
  • Center for Online Judaic Studies, “Relief and Stelae of Pharaoh Shoshenq I”. Utilizado como fonte complementar para informações sobre os registros de Shoshenq I e sua campanha na região de Israel e Judá.

Nota: As referências bíblicas aparecem ao longo do artigo para facilitar a consulta às Escrituras. As Bíblias de estudo e as fontes históricas e arqueológicas foram utilizadas como apoio para informações de contexto e não substituem o relato bíblico.

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